quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama, pra que te quero?

O dedinho nem estava para seguir noite eleitoral nenhuma. Tem andado constipado e precisa, sobretudo, de dormir. No entanto, entusiasmou-se com a primeira ronda internáutica pelas televisões internacionais, foi ficando... Inevitavelmente, adormeceu no sofá. Acordou, dormente, pelas quatro e meia ao som de uma voz reconhecível que discursava. Era Mr. McCain que fazia o seu discurso de derrota. Missão cumprida, pensou. Depois, não pôde evitar pensar também que as eleições americanas são sempre uma espécie de armadilha mediática, às quais prestamos atenção como se fossem nossas, como se tivessem realmente o poder de mudar o mundo. Depois, lembrou-se dos milhares de milhões de dólares que custa uma campanha (sobretudo a de Obama, a mais cara de sempre) e pensou na crise e noutras coisas igualmente tristes. Ficou tão triste, tão triste, que aterrou na cama a lembrar-se desse grande «pensador» português que repete incessantemente: «Não há almoços grátis»...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A cultura que dá lucros...



Se o ridículo matasse, já não existiria o problema da sobrepopulação mundial! Fala-se de «lucros» numa instituição pública artística portuguesa? Com um investimento público de perto de vinte milhões de euros, mais um milhão, duzentos e cinquenta mil de mecenato privado (em retracção, porque será?), mais dois milhões, cento e quarenta e quatro mil euros de bilheteira e rendimentos de exploração de «eventos»? Eu ainda sou do tempo em que um gestor público artístico era reprovado se não conseguisse gastar os recursos que tem à disposição para cumprir a sua missão. Significava apenas que não tinha cumprido a missão; ou então, que tinha calculado mal os recursos de que necessitava. Agora, publicitam-se «lucros»!! É pena que as pessoas, incluindo os próprios gestores públicos artísticos, não percebam os riscos absurdamente elevados que corremos com a empresarialização das estruturas e, sobretudo, dos discursos. Mais cedo do que esperamos, o discurso toma conta da realidade e lá se vai qualquer justificação para o investimento público na área da cultura. No meio disto, o meu dedinho faz apenas uma pergunta, que espera não incomode: com lucros destes, porque é que a notícia diz que o estado deverá proceder a um aumento do capital social no valor de dois milhões de euros?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

já nem a bola...

O dedinho, hoje, pôs-se a ver a bola. Acabou a achar que ele, sozinho, só com uma perna, era capaz de ganhar. Se não à Albânia, pelo menos a Portugal. Agora sim, pensou, a crise está mesmo aí...

crisis? what crisis?

Embalados pelo lento cair da folha, neste outono atípico, cheio de nevoeiro, sol e calor, acordamos um dia a pensar que o mundo ruiu, no seguinte acreditamos piamente que o mundo se levantou e, no fundo, no fundo, ainda não experimentámos nada.

Tudo parece passar-se no limbo televisual onde as estrelas são obama e a sua beleza dermoestética, sarko e a beleza da sua conjugalidade, sarah pallin e o feio horrível de ver como o criptofascismo volta a funcionar...

Porém, lembram-se da Argentina, um dos países emergentes dos oitenta que colapsou nos noventa? Repararam na Islândia, segundo país do mundo em índice de desenvolvimento humano, que vive hoje a dura realidade do racionamento de combustíveis e alimentos: algo que a europa pensava ter enterrado quando enterrou o senhor adolfo e começou um ciclo de crescimento (aparentemente) imparável com a ajuda do senhor marshall?

A crise, meus amigos, é sistémica. A fronteira entre a economia financeira e a economia real (estratagema que políticos e banqueiros usam hoje para exorcisar os nossos fantasmas) é virtual e ilusória.
A banca, as bolsas e outros quejandos rebentaram (ou vão ainda rebentar) porque o sistema é insustentável: vivemos na mirífica realidade de um suposto capitalismo financeiro que apenas emergiu porque alguém esqueceu pelo caminho a importantíssima (e básica) necessidade de socialização do rendimento. Não, não estou a falar de socialismo, nem de comunismo, nem de outros ismos que a história foi inventando para justificar regimes políticos que, no fundo, no fundo, nunca se diferenciaram tanto como isso (alguém duvida que a URSS era um mero compromisso entre o feudalismo da rússia czarista e uma antecipação visionária do capitalismo de estado que hoje vivemos?).

Estou a falar de uma coisa mais simples, mais humana, que tentarei explicar sucintamente.
Aquilo a que chamo rendimento não é mais do que o conjunto da riqueza gerada pelos processos de produção de bens e serviços. Quando a produção desta riqueza se baseava substancialmente no trabalho directo, a distribuição do rendimento estava mais ou menos assegurada através dos salários, apesar das enormes injustiças... Hoje, com a explosão tecnológica, o trabalho directo tornou-se, em grande medida, dispensável. Com (apenas) algum exagero, poderemos dizer que boa parte dos processos industriais estão no limiar de dispensar a presença física de trabalhadores.

Ora, o que acontece então ao dito rendimento? Verticaliza-se, o que é dizer que sobe vertiginosamente até ao topo da escala social, deixando a base seca, desertificada.
Ora, por outro lado, a economia (real) destes dias depende do consumo de massas.
Ora, se as massas estão descapitalizadas, quem consome o consumo de massas?
É por isso que tudo o que significa consumos de luxo está florescente como nunca e tudo o que depende do consumo de massas está em crise.
É aqui que podemos encontrar a natureza desta crise.
É óbvio que os disparates especulativos da alta finança aceleraram e puseram a nu o desequilíbrio sistémico em que vivemos.
Mas são apenas a árvore que esconde a floresta!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Para que serve o Teatro?

perguntam-nos:
para que serve o teatro?

diremos que é preciso deixarmo-nos devorar
entregarmo-nos a um fogo
que arde e queima
e não o vemos e não sabemos onde.

diremos que a vida é uma roleta
apanha-nos sempre noutro algures: vermelho, ímpar
diremos que é bom entrever, ensaiar futuros possíveis
fragmentos, lampejos de coisas ausentes.
diremos que o ar que respiramos
o ar que respiramos
é já teatro; é pó trágico do teatro

perguntamos: para que servimos nós?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Emigrar! Mas para onde?

O milénio começou há oito anos (sete, para os mais puristas). Desde então, quantas mudanças! Malta que nasceu em 2001, tem agora sete anos! Malta que era jovem, então, está hoje a fazer contas às suas expectativas e aos seus projectos e a tentar perceber porque perdeu tanto tempo a dar para peditórios alheios. Malta que era velha não estará já eventualmente por aí.
Desde que o milénio começou, o clima avariou. Desde que o milénio começou, o país empanou e parou. Foi o Durão, que agora é Barroso e europeu, foi o Santana que é obviamente Lopes e pronto, foi o Sócrates que afinal é Pinto de Sousa e engenheiro, e tudo. É o Rio e agora vou tentar não chorar. Foi Sasportes, foi aquele senhor que agora é o cão de fila do Governo, foi Roseta/Amaral Lopes, foi Bustorff/Caeiro, foi Pires de Lima/Vieira de Carvalho, agora é Ribeiro e já ninguém se lembra onde desagua.
O Ministério da Cultura , que foi uma invenção de impacto civilizacional, há apenas 13 anos, foi morto e enterrado pelo mesmo PS que o inventou. É hoje um farrapo que, a partir do próximo ano, será apenas o buraco do farrapo. Um corte de 21% (se bem sabe o meu dedinho, que leu a coisa nos jornais e por isso faz um esforço para acreditar) em cima de um orçamento que já era uma piada, é um insulto para um país que se quer qualificado, é um magalhães ao contrário porque se calhar não dá lucro às telefónicas nem é exportável para a Venezuela. Emigrar, sim, mas para onde?

Olá, olá!

O dedinho manda dizer que não tem culpa. Avisa, avisa, não pára de falar! A culpa é dos outros dedinhos que não querem escrever o que ele diz.